Escrito por Ivan Martins, da Época

A foto estava na Folha de S.Paulo de ontem. O homem corpulento, de cabelos claros, deitava-se sobre a mulher de vestido branco, no asfalto. A legenda da foto dizia que ele tentava protegê-la dos tiros do psicopata que matou 59 pessoas em Las Vegas, mas a imagem era incerta. Talvez ele apenas tentasse acalmá-la ou pode ser que ela estivesse ferida. De qualquer maneira, lá estavam eles, um nos braços do outro, estendidos no chão, a céu aberto. O amor vulnerável como a vida.

Eu vi as fotos do massacre de Las Vegas na manhã de terça-feira, depois de ter dormido mal na noite anterior, perturbado pela temática da série americana Handsmaid’s tale, cujo título foi traduzido para o português como O conto da aia.  Uma violência juntou-se à outra e percebi que era inevitável escrever sobre a confluência desses assuntos. Hoje, os dilemas amorosos terão de esperar até as últimas linhas desta coluna.

Para quem não sabe, a série Handsmaid’s tale – que ainda não está sendo exibida no Brasil – fala de uma sociedade futura, dominada por fanáticos religiosos. Eles são contra os gays, contra as lésbicas, contra as feministas, contra a liberdade, contra o sexo, contra a cultura e contra a ciência. No inferno devocional criado por eles, as mulheres são submetidas pela violência a condições bíblicas de ignorância, obediência e servidão. A protagonista da série (a espantosa Elisabeth Moss, de Mad men) é mantida como uma espécie de animal doméstico por uma família poderosa, por ainda ser capaz de engravidar, enquanto a maioria das mulheres não consegue mais. Ela deve procriar com o chefe da casa, o comandante, sob o olhar vigilante e ciumento da mulher estéril dele.

Dormi na segunda-feira com a cabeça tomada por essa distopia e acordei na manhã de ontem mergulhado em outra.

Vocês já repararam no que está acontecendo ao nosso redor, aqui no Brasil? Os fanáticos religiosos estão tentando cercear todos os atos e comportamentos que julgam incompatíveis com as crenças deles. Impedem os professores de discutir política em sala de aula, enquanto enfiam aulas de religião nas escolas públicas de um país laico. Não querem peças de teatro com temática gay, conseguem fechar exibições de arte que consideram ofensivas, mobilizam as redes sociais por causa de um artista nu, cuja performance foi vista por uma criança acompanhada pela mãe.

No romance de Margaret Atwood, que deu origem à série, é assim que tudo começa. Primeiro, os fanáticos criticam os comportamentos liberais, depois eles os proíbem e, por fim, armados, militarizados, obrigam todos (e sobretudo todas) a viver da forma que eles acham correta. Num dia, as mulheres são impedidas de ter contas bancárias. No outro, são expulsas dos locais de trabalho e dos bares. Todos acham que se trata de um absurdo temporário e por isso não reagem. Quando percebem, o mundo em que viviam não existe mais.

O que fez a conexão paranoica para mim entre a história da série e a realidade – tanto a brasileira quanto a americana – é que, na ficção, a justificativa para a tomada do poder pelos religiosos vem dos atos de terrorismo, como o que aconteceu em Las Vegas. Amplificados e reinterpretados pela máquina de propaganda conservadora, os atentados servem para construir a narrativa de uma civilização que “deu errado” e criam a atmosfera para a instalação de uma ditadura em que mulheres e homens são caçados na rua e enforcados por seus comportamentos sexuais e suas convicções políticas.

No Brasil não temos atentados, mas as manchetes anunciam diariamente o fim do mundo, representado pela desmoralização da vida pública. Aqui, a corrupção tomou o lugar da violência como justificativa para o discurso da ordem e da moralização a qualquer preço. A ditadura tenta entrar por outra porta, mas é ditadura do mesmo jeito, e não se trata de ficção. Há pessoas de verdade pedindo intervenção militar.

Vocês não sentem um frio na barriga ao ler essas coisas? Eu sinto. Acho que por trás dos malucos das redes sociais há gente lúcida, organizada, que gostaria, conscientemente, de voltar o relógio a um momento anterior à Revolução Francesa, em que as liberdades políticas, religiosas e pessoais não existiam – e a sociedade era controlada apenas por homens de “boas famílias”, amparados no direito divino.

Tenho certeza de que milhões de pessoas no mundo inteiro, assistindo à série americana, pensarão, assustados que estão, em como seria bom viver num ambiente assim tranquilo: nada fora da ordem e da natureza, cada um em seu lugar, todos cumprindo seu dever como ordenado pelos comandantes, sem debates ou complicações. Sob os olhos Dele.

Eu disse que hoje não escreveria sob dilemas amorosos, mas tratarei de um deles.

Em Handsmaid’s tale, quando a ditadura religiosa começa a se impor, o marido da protagonista promete protegê-la. Ele falha, naturalmente. Assim como o homem deitado sobre a mulher no asfalto de Las Vegas, cujo corpo seria inútil diante dos projéteis do atirador, nenhum de nós consegue proteger a pessoa que ama dos fanáticos, dos psicopatas, dos assassinos fardados ou civis. Sozinhos somos fracos. Mas, juntos, homens e mulheres, organizados e resolutos, podemos repelir os que desejam sequestrar nossa liberdade e nossas vidas em prol da crença deles. O segredo é não esperar até que seja tarde demais. Afinal, se a gente prestar atenção, vai perceber que os arautos da distopia estão na esquina e seus gritos já se fazem ouvir.