Fonte: Ivan Martins, colunista da Época

Uma palavra velha e bonita desapareceu do nosso vocabulário afetivo. Amante. Ninguém mais diz que tem amante. As pessoas tampouco dizem que são amantes. Quando estão em relações íntimas sem que haja namoro ou casamento, costumam dizer que estão ficando ou saindo com alguém – uma escolha de palavras bem mais pobre.

O motivo dessa opção é óbvio: embora o dicionário explique que amante é aquele que ama, a palavra ganhou um significado restrito. Define quem se relaciona clandestinamente. Amante tornou-se uma palavra negativa. Ficou reservada às fofocas de escritório, aos dramalhões de TV e ao noticiário sensacionalista. Quando a imprensa descobre que alguém famoso tem uma relação fora do casamento, a palavra ressurge, espetaculosa: amante.

Acho uma pena que tenhamos abandonado o uso poético de uma palavra quando mais precisamos dele. Nunca houve tantos relacionamentos em que as pessoas pudessem se definir como amantes. No passado, elas namoravam ou se casavam. Hoje, homens e mulheres se entregam uns aos outros sem a proteção dos rótulos, mas com enorme intimidade. São amantes na mais pura acepção do termo, ligados somente por desejo e sentimentos, sem obrigações sociais.

Se dependesse de mim, eu recolocaria em uso a palavra amante e abraçaria as relações que ela define. Por uma razão simples: está na hora de entender que aquilo que vivemos na maior parte do tempo também tem importância. As pessoas que transam e dormem conosco, que sonham ao nosso lado e nos abraçam quando temos frio, são parte importante da nossa vida, embora não tenham título, embora não sejam marido, mulher ou namorado. Quando beijamos alguém sofregamente – e amamos com alegria e paixão –, não estamos somente à espera de um namoro ou de um casamento. As relações transitórias e intensas que vivemos são elas mesmas uma forma de amor. Talvez a grande forma de amor do nosso tempo, em que tudo nos escapa e nos fascina. As relações sem nome e sem regras em que nos metemos refletem nossas dificuldades afetivas, mas também as novas possibilidades. Elas têm a cara da nossa angústia e as feições da nossa alegria. Espelham nossa capacidade de ter e dar prazer, assim como de acolher e ser acolhido, sem culpa.

Por que a gente não diz, orgulhosamente, “ela é minha amante”? Quem dorme na nossa cama e usa a nossa escova de dentes não é apenas amigo. Quando se diz “estamos ficando”, será que isso traduz a intensidade física e emocional das coisas que temos vivido? Alguém percebe, nessas palavras, que duas pessoas ficaram conversando até amanhecer, que dormiram nuas lendo poesia? “Estamos saindo” é o mesmo que penetrar outro corpo apaixonadamente e depois falar de dores e paixões, diante dos olhos brilhantes do outro? Acho que não.

A palavra “amante” expressa tudo isso de forma mais clara e mais intensa. Ela dimensiona nossas atitudes e sentimentos – e impede que nos sintamos diminuídos pelo que nos faz bem.

Acho importante falar também do outro uso da palavra, aquele estigmatizado. Os amantes clandestinos não são menos amorosos ou menos amados do que os demais. O que acontece na intimidade deles tem beleza, apesar das coisas sórdidas que se dizem. Está na hora de olhar para esse assunto sem condenação antecipada, sem insultos, sem falso moralismo, sem violência.

Proponho, portanto, que a gente volte a usar sem medo, e conscientemente, a palavra amante, para definir as pessoas com quem fazemos amor, com quem trocamos prazer, com quem dividimos o nosso afeto e o nosso calor. Não interessa o status social da relação. Na primavera brasileira, quando chove e faz frio, quando a neblina cobre os prédios e os morros, todas as formas de amor são importantes, e merecem ser nomeadas com palavras bonitas.