Fonte: Ivan Martins, da Época

Chorando, a amiga ligou para contar que o ex-namorado a tinha insultado de forma terrível. Eles discutiam a propriedade de objetos que haviam comprado juntos, foram se irritando mutuamente com a falta de acordo, e ele, sentindo-se acuado, lembrou um episódio antigo da intimidade deles para desqualificá-la. Chocada, ela revidou como pôde, mas, assim que ficou sozinha, desabou. Ninguém é capaz de nos ferir como aqueles que nos amaram.

Vocês já devem ter ouvido histórias assim. Talvez até as tenham vivido. É comum que ex-casais tenham conversas destrutivas. Todo cuidado anterior em proteger e cuidar se transforma em seu oposto. O ressentimento irrompe de forma inesperada e torna as conversas impossíveis. Tudo que foi calado e reprimido é posto para fora ao menor pretexto. Quando esse clima de acerto de contas se instala, há pouco espaço para afeto ou compreensão.

Foi mais ou menos o que aconteceu com minha amiga. Ela está de namorado novo e o ex ainda está sozinho. A soma de inveja, ciúme e desavença financeira se juntou para produzir a agressão – que a deixou prostrada.

Na hora, eu não tive presença de espírito para acudi-la com as palavras corretas, mas é evidente que aquilo que o sujeito disse não tem a menor importância e não deve ser levado a sério. Se eu estivesse com ela ao telefone agora, ou a tivesse sentada diante de mim, diria o seguinte:

“Imagine que alguém jogou uma pedra em você. A pedra machuca, mas você não fica refletindo sobre ela. É apenas material inanimado. Você não põe a pedra no bolso, não a leva para casa e nem passa a noite pensando sobre ela, sem dormir. A agressão verbal do ex-namorado, o conteúdo da acusação retroativa que ele fez, é uma pedra. Machuca, mas não merece um segundo de atenção. Não é algo que se deva ficar remoendo. É apenas um objeto de vingança. Fere, mas não tem valor. Melhor gastar tempo – se for o caso – refletindo sobre os motivos por trás da agressão e sobre sua reação a ela. Daí pode sair alguma coisa. Das pedras, sabidamente, não sai nada”.

Entendam bem: não estou dizendo que a agressão não importa. Importa sim. O cara foi escroto, e isso deve ser anotado, lembrado e cobrado. Mas o conteúdo do que ele disse não importa. Nunca importa nesse tipo de conversa. O sujeito (ou a mulher) está com raiva e tenta machucar. Dependendo do seu caráter, usará qualquer instrumento ao seu alcance, dirá qualquer insanidade. Como conhece as fragilidades da ex-parceira, sabe o que dizer para feri-la – e ela deveria se proteger desses ataques. Todos deveríamos.

Às vezes, somos obrigados a nos defender de quem teve acesso a nossa intimidade. Um dia a pessoa está dentro da nossa vida, na posse dos nossos segredos. No outro está fora, usando o que sabe para nos atingir. É difícil lidar com isso. Afinal, quando se está apaixonado, a confiança é total. A gente divide a mente e o coração sem medir palavras. A gente erra e acerta juntos. Não imaginamos que atos e palavras serão usados contra nós no futuro, mas algumas vezes são.

Uma vez que não há como se precaver contra esse tipo de traição emocional – afinal, sem confiança e entrega não há relacionamento que preste –, a gente tem de lidar com os fatos consumados e suas consequências. É aí que entra a história da pedra. Se alguém desce tão baixo a ponto de nos atacar com uma confissão colhida em nossa cama, não devemos permitir que nos atinja. É lixo, é pedra, é nada. E a pessoa que faz esse tipo de acusação e usa esse tipo de informação tampouco vale muito. Melhor desprezá-la.

Falo isso ciente de que nossas emoções não são controláveis. Somos movidos a culpa e os ataques que nos fazem muitas vezes encontram aliados em nós mesmos. É duro repelir uma agressão quando uma parte masoquista de nós se identifica com o agressor. Por isso é preciso romper a identificação e não se deixar machucar injustamente pela mágoa dos outros. As pessoas não têm direito de atirar a frustração delas na nossa cara. Ou de nos atacar com segredos íntimos porque se sentem ameaçadas ou preteridas. Quando isso acontece, temos de olhar indignados para o outro, cheio de pedras na mão, e nos lembrar que ele tem apenas isso, pedras. Não são verdades, não são fatos, não são nada que nos diga respeito.