Fonte: Conjur.com.br

A primeira vez que eu me envolvi com um aborto tinha 19 anos. Conheci uma garota, saímos alguns dias, então ela me contou que iria fazer um aborto, do namorado anterior. Uma amiga a levou à clínica e eu cuidei dela na volta, durante a noite. Lembro que estava abatida, mas não me pareceu coisa grave. Eu era garoto, porém. Não saberia ler os sinais. Mesmo homens maduros têm um déficit de sensibilidade nesse assunto.

Na minha geração – e no meu grupo social – as mulheres abortavam com aparente naturalidade. Abortar trazia problemas de ordem médica, legal e financeira, mas raramente de ordem moral. Sem muita discussão, se assumia que esse era o jeito de lidar com a gravidez indesejada. A Aids não existia, as pessoas queriam ser livres para transar e o aborto era o preço a ser pago.

Hoje me parece que talvez não houvesse – naquele tempo e naquele grupo social – espaço emocional para discutir as angústias femininas decorrentes do aborto.

Falei outro dia com uma amiga que estudou na USP na mesma época que eu e ela me contou uma história que sugere a existência de traumas clandestinos. Ela abortou do namorado a quem amava e teve uma depressão aos 20 anos. Diz que até hoje pensa no filho que não teve – embora tenha tido três filhos depois disso.

Ao contrário de um monte de gente que acha que os sentimentos dolorosos das mulheres no aborto são naturais e inevitáveis, eu tendo a achar que eles são aprendidos socialmente. Outras épocas, outras civilizações, trataram e tratam esse assunto de maneira diferente. Não existe apenas uma sensibilidade possível. Uma mulher sueca e uma mulher brasileira provavelmente terão sentimentos distintos diante dessa experiência. Depende do que ela ouviu sobre o assunto desde infância, depende do tipo de religiosidade ao seu redor, depende da relação com o homem envolvido, depende inteiramente da forma como o aborto for feito – às claras, num hospital, com amparo médico e social, ou na clandestinidade, como delinquente, sob risco de ser presa ou morrer num leito improvisado.

A culpa que muitas mulheres brasileiras carregam diante de um aborto não pode ser dissociada da situação de criminalidade a que elas estão sujeitas, e que não existe em vários países.

Constatar isso não muda nada, porém.

Cultural ou não, induzida pela ilegalidade ou não, a situação emocional a que as mulheres estão expostas existe concretamente – e produz, em muitos casos, resultados desastrosos. Abortos são frequentemente seguidos de culpa e depressão, e muitas relações de casal são abaladas ou destruídas por ele. A percepção racional de que a maternidade é uma opção parece colidir com o sentimento – presente em muitas mulheres – de que toda gravidez precisa ser concluída, mesmo em circunstâncias ruins e com parceiros inadequados. Mesmo indesejada.

O que eu, um homem, tenho a ver com isso? Por que estou me metendo num assunto que diz respeito essencialmente às mulheres, seus corpos e seus sentimentos – os quais eu, provavelmente, nem sou capaz de entender? Resposta: porque eu descobri que o aborto diz respeito também aos homens. Ele afeta a vida das mulheres que amamos e consequentemente as nossas vidas.

A segunda e última vez em que participei de um aborto eu já era adulto. Pude perceber – de perto – os graves sentimentos femininos envolvidos nessa decisão. Primeiro, dúvida, angústia e medo, muito medo. Depois culpa, tristeza e rejeição. Eu pensei ter sido total e inteiramente solidário, dando a ela o poder de escolha e apoio em qualquer decisão, mas descobri, rapidamente, que minha participação fora insuficiente. Emocionalmente. Não consegui compartilhar a complexidade dos sentimentos dela. Nem sei realmente se tentei. Nem sei se seria possível. Sentindo-se sozinha, ela se isolou, nos afastamos, e a relação terminou antes que acabassem os sentimentos.

Essa experiência não mudou o que eu penso a respeito do assunto, mas retirou das minhas convicções a simplicidade que elas tinham anteriormente.

Continuo acreditando que o aborto é uma escolha pessoal intransferível, que deveria ser decidido somente pelos valores das mulheres envolvidas. Não deveria ser tratado pelo Estado laico como questão religiosa e muito menos como assunto de polícia.

Mas hoje eu sei que o aborto não é um mero ato cirúrgico, como pensavam muitos da minha geração. Sobretudo se há amor no interior do casal. Pelas complexidades culturais e religiosas do Brasil, e sobretudo pela criminalização, é inevitável que muitas mulheres saiam traumatizadas da experiência do aborto – e precisem de todo apoio e de muita compreensão dos seus parceiros.

O homem que encarar um aborto da mulher que ama com leveza corre o risco imenso de perdê-la.