Escrito por Ivan Martins, da Época

Desde de que eu comecei a escrever sobre relacionamentos, virei uma espécie de ouvinte preferencial de histórias tristes. Todo mundo, ou quase todo mundo, tem, num momento ou em outro, um desabafo a fazer sobre esse assunto: em geral, quando os relacionamentos acabam; muitas vezes, porque nem começam.

Nós, humanos do século XXI, temos uma vocação evidente para nos meter-nos em aventuras emocionalmente complicadas, das quais relutamos em sair, sabe-se lá por quê.

De todos os tipos de histórias que eu ouço, a que mais me intriga é a que está resumida no título desta crônica. Ele espelha, de um jeito espirituoso, as inexplicáveis dificuldades de um número enorme de mulheres modernas.

“Todos os caras por quem eu me interesso são gays, comprometidos ou simplesmente não gostam de mim”, disse outro dia, entre uma e outra garfada de risoto, a amiga que almoçava comigo – uma mulher jovem, atraente, interessante, que não tem namorado desde 2014. Ela soltou a frase e eu fiquei olhando para a cara dela, esquecido do meu filé à milanesa e atordoado com a simplicidade da sua explicação.

Será, então, que as dificuldades de relacionamento das mulheres de 2017 se resumem a isso: o crescimento do número de homens que assumem ser gay, a escassez de solteiros interessantes ou a falta de sorte delas com os caras que estão disponíveis?

Não sei.

É fato que, hoje em dia, há mais gays em nosso convívio do que havia no passado, graças à liberdade conquistada pelos movimentos LGBT. Mas isso não reduziu a oferta de parceiros para as mulheres, pela simples razão de que os homossexuais secretos nunca foram bons candidatos a namorados ou maridos. Se hoje eles são felizes como gays, significa que no passado teriam sido heterossexuais tristes – assim como as suas parceiras. A liberação gay trouxe alegria para um monte de homens, e as mulheres não perderam nada que estivesse emocionalmente disponível para elas.

A escassez de homens interessantes talvez seja mais real. Minha amiga é culta, independente, cheia de experiências para dividir, cheia de planos. Não é qualquer conversa sobre baladas ou bebedeiras que a mantém entretida. Ela tem expectativa de ser seduzida pela personalidade e pela cabeça dos caras com quem sai, e se desinteressa quando um sujeito de 30 anos começa a falar como garoto de 17. Quem irá criticá-la?

No ambiente de superficialidade explosiva em que vivemos, os caras que têm mais consistência pessoal atraem a atenção das mulheres e arrumam compromisso antes dos 30 anos. É por isso que as mulheres dizem que os tipos bacanas estão indisponíveis. Se um homem atraente de 35 anos nunca foi casado e nem tem namorada, as mulheres começam a se perguntar o que há de errado com ele. Ao menos é o que elas me dizem, rindo.

Isso nos leva ao terceiro ponto da minha amiga: os caras que não gostam dela. Esse é um problema verdadeiro. Há muito homem legal que não está interessado em relacionamentos, por um monte de razões. A principal delas, segundo a pesquisa anticientífica do Instituto Ivan Martins, é que eles ainda não ficaram apaixonados. Gostam de ser livres, saem com várias mulheres, e nenhuma delas ainda causou aquele microterremoto afetivo que precisa acontecer para o sujeito largar a sedução serial e começar a dormir de conchinha, monogamicamente.

Minha amiga é um encanto, mas os caras por quem ela se encantou não se encantaram por ela. Ela mesmo diz que a sua vida afetiva tem se resumido a encontros por aplicativos que podem ou não terminar em sexo, mas que, de uma forma ou de outra, não costumam evoluir em direção alguma. Quando o cara quer mais, ela não está interessada. Quando ela gostou do sujeito, ele some. Ela jura que não é masoquista e nem pratica autossabotagem. Apenas acontece – com ela e, segundo ela me diz, com um monte de amigas dela que fizeram ou estão fazendo 30 anos.

Acho isso tudo doloroso, mas compreensível. A solidão dos aplicativos é a marca registrada dos nossos dias. Há milhões de homens e mulheres buscando parceiros a nosso redor, e outros milhões que não estão interessados em nada duradouro ou exclusivo – e, às vezes, eles são a mesma pessoa. Para quem me deseja e eu não quero, pareço um frio aproveitador do corpo e do tempo alheio. Para quem eu desejo e não me quer, não passo de um carente.

Isso nos conduz à segunda razão por que muitos caras não querem se relacionar com mulheres legais como a minha amiga: porque existe uma abundância inédita de possibilidades sexuais em nossa sociedade, para homens e mulheres, e isso tem uma espécie de preço, ou lado B.

Muitas pessoas parecem ter adotado na vida íntima um padrão de consumo equivalente ao que mantêm com roupas e acessórios: quanto maior a variedade, melhor. Quanto mais gente eu pegar, quanto mais bonitas as pessoas, quanto mais elas atraírem a minha atenção – e ajudarem a atrair a atenção dos outros para mim – melhor. A vida afetiva virou uma espécie de Rua Oscar Freire e o objetivo de muitos é obter as peças mais vistosas para a sua coleção particular. A chance de se apaixonar num contexto desses, em que todos estão subjetivamente esperando o que trará a próxima coleção, é mínima.

Muita gente acha essa situação inevitável. Seria o custo a pagar pela liberdade numa sociedade que nos oferece valores cada vez mais efêmeros e superficiais, uma sociedade que iguala amor a objetos de posse.

Eu acho que a gente deveria se rebelar. Homens e mulheres precisam se perguntar o que está por trás dessa corrida pelo próximo corpo e pela próxima experiência esquecível. Enquanto estivermos à procura de algo mais profundo e mais intenso, a busca faz sentido. Quando ela se tornou o preenchimento automático e constante de um vazio que nos recusamos a encarar – então é hora de parar e refletir.

O que a história da minha amiga nos sugere é que estamos vivendo numa sociedade de excluídos amorosos. Há milhões de pessoas buscando relações inutilmente – sobretudo as mulheres – e outros milhões mergulhados numa troca frenética de parceiros que traz pouca ou nenhuma satisfação emocional.

Para mim, isso lembra, não por acidente, o que acontece no mercado de trabalho: muitos trabalham até o limite da exaustão e do colapso, enquanto outros não têm um trabalho estável que permita viver. Onde está o equilíbrio?

Só quem não sofreu a devastação da solidão em meio a essa aparente abundância de sexo e afeto acha esse tema desimportante. Quando milhões de pessoas estão sozinhas contra a sua vontade, numa sociedade que valoriza o romance e os relacionamentos acima de tudo, alguma coisa errada está acontecendo. Eu não sei o que é, mas, em nome da minha amiga, e de mim mesmo, acho importante pensar muito sobre esse assunto.