A Dança, Legião Urbana
Você não tem ideias pra acompanhar a moda
Tratando as meninas como se fossem lixo
Ou então espécie rara só a você pertence
Ou então espécie rara que você não respeita
Ou então espécie rara que é só um objeto
Pra usar e jogar fora, depois de ter prazer

O corpo é nosso primeiro território. Teorias do desenvolvimento de bebês argumentam que os recém-nascidos, em um primeiro momento, não conseguem diferenciar a si mesmos de suas mães. Sentem-se como um todo, um complexo confundido com os corpos de suas mães. A diferenciação ocorre aos poucos, é um processo lento de autorreconhecimento, de identificação. O bebê vai diferenciando seu corpo do universo externo e também de sua mãe e vai entendendo que é um ser apartado, autônomo.

A construção de nossas identidades dependem do reconhecimento desse corpo como autônomo e como limite e fronteira entre o “meu” e o “outro”, entre o “interno” e o “externo”. É algo tão íntimo e tão fundamental, que é difícil pensar em seres autônomos sem pleno domínio desse primeiro território.

Mas às mulheres é negado esse primordial espaço de intimidade, de proteção, de autonomia e de identidade. Cotidiana e diuturnamente. Nossa autonomia nos é ceifada no mais íntimo e mais profundo: na possibilidade de nos reconhecermos donas de nós mesmas. Essa intensa e original violência não é sequer percebida, está introjetada nos discursos sociais, nos universos culturais, nas poesias, romances, letras de música, nos conteúdos televisivos, filmes de cinema, publicidades em todos os suportes de mídia. São mensagens que nos bombardeiam de múltiplas formas para nos dizer que nós não pertencemos a nós mesmas. Dizem que não somos capazes de tomar decisões sobre nossos corpos – débeis e incapazes que somos.

Enquanto em boa parte dos conteúdos midiáticos (filmes e telenovelas) a felicidade das mulheres reside sempre no casamento e na gravidez, em um discurso sufocante e limitante de que nós somos apenas completas quando nos enquadramos nesses papéis, as peças publicitárias tendem a apresentar as mulheres em dois lugares bem específicos: como donas de casa que podem usar produtos mágicos para tornar suas rotinas melhores, ou como objetos que existem simplesmente para o prazer masculino. Não somos completamente humanas: ficamos nesse limbo entre seres humanos e coisas, desprovidas de autonomia, pensamento, sentimentos e desejos. Alegramo-nos em sermos desejadas pelos homens, como meros objetos. Mas esse é o nosso limite, vivemos em uma sociedade que não tolera o desejo feminino. Não tolera mulheres desejantes e que aspiram a integrar a categoria de seres humanos.

Esse discurso social limitante, atrofiante e sufocante é naturalizado em nossa sociedade, mas não se trata de fato de algo “natural”. Esse discurso é, antes, fator estruturante da sociedade. Reflete-se e reproduz-se nas violências sofridas massivamente: no assédio sexual nas ruas, no trabalho, na negação da nossa liberdade sexual e reprodutiva. Há um fio condutor que conecta a naturalização do desejo sexual de homens por adolescentes de 12 anos e ainda as responsabiliza “por causarem furor” (como no caso da menina do MasterChef Júnior em que isso ficou evidenciado), a limitação do acesso por parte das mulheres a métodos contraceptivos e ao aborto legal (que agora sofre perigo de mais restrições, por meio do Projeto de Lei 5069, de autoria de Eduardo Cunha) e a violência física, psicológica e sexual de que boa parte das mulheres brasileiras é vítima cotidianamente.

Essa ligação é justamente o discurso social que permeia e estrutura nossa sociedade e que nos diz constantemente que nossos corpos não são nossos, que não temos direito nenhum a esse primeiro e fundamental território, que não somos humanas o bastante para merecê-lo.

Por:

Tamara Amoroso Gonçalves é Doutoranda do Programa de Direito da Universidade de Victoria (Canadá). Mestra em Direitos Humanos pela USP. Pesquisadora associada do Instituto Simone de Beauvoir (Universidade Concordia, Canada). Integrante do CLADEM/Brasil, do Grupo de Estudos sobre Aborto (GEA) e do Conselho Consultivo da Doctors for Choice Brazil. Autora de “Direitos Humanos das Mulheres e a Comissão de Direitos Humanos”, pela Editora Saraiva.
 
Daniela Rosendo é professora, mestra e doutoranda em Filosofia pela UFSC. Integrante do Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos das Mulheres (CLADEM Brasil).