Fonte: Ivan Martins, da Época

Quatro casais que eu conhecia se desfizeram nas últimas semanas. Eram casamentos estáveis, de vários anos, envolvendo gente de idades e estilos diferentes. Talvez os astrólogos tenham algo mágico a dizer sobre essa concentração de eventos, mas eu sei que é coincidência: enquanto algumas pessoas que eu conheço se separaram, milhares de outras, estranhas para mim, foram morar juntas ou entraram na igreja ou no cartório nesse mesmo período. Não existe uma epidemia de separações no planeta Terra. Existe um ciclo afetivo, de natureza íntima, que reúne e separa casais ao longo do tempo. É como uma maré que sobe e desce, expondo a paisagem e trazendo com ela tristeza e possibilidades.

John Donne, um poeta inglês nascido em 1572, escreveu que as pessoas não deveriam se perguntar por quem tocam os sinos de finados. Eles tocam por nós. Por sermos parte do contingente humano, a morte de todos e de cada um nos diz respeito. Pois eu sinto da mesma forma em relação às separações. Cada uma delas, sobretudo as próximas, fazem reverberar em mim as dores das minhas próprias separações. Cada desfazimento amoroso é uma espécie de derrota pessoal e coletiva. Juntos, parecem anunciar um outono de desilusões.

Se a gente avançar um passo além da identificação, achará um motivo humanitário para lamentar essas rupturas: elas costumam vir carregadas de dor. Mesmo o mais tranquilo dos afastamentos deixa dois seres humanos com toneladas de sentimentos a processar. Há o passado inteiro a ser revisto e um futuro imenso a imaginar, e ele às vezes parece insondável. Essa situação provoca ansiedade e angústia, que acompanham os separados nas mais inesperadas situações. De repente, quando ele acha que está sendo feliz, vem do nada uma sombra e com ela a vontade de ficar quieto e sozinho. Ou de ligar para aquele pedaço de si agora afastado. Não há barulho que encubra esse silêncio.

Diante da inevitabilidade da dor, por que as pessoas se separam? Há milhões de seres humanos, no mundo inteiro, neste exato instante, que dariam os dedos das mãos por uma relação estável e afetuosa. E, no entanto, milhares de pessoas, neste mesmo instante, estão batendo a porta e saindo de casa, ou dedilhando no celular mensagens de despedida. Diante da necessidade de amor que todos sentimos, o rompimento entre pessoas que se gostam, entre gente que não pode erguer o dedo para acusar o outro de nada, pode parecer uma forma de loucura. Mas não é, por ao menos duas razões.

A primeira, e mais importante, é que nossos sentimentos não duram para sempre.

A gente se apaixona, namora, resolve viver junto ou casar, ter filhos, movido por uma aspiração de eternidade. Lá dentro, no interior inconfessável de nós mesmos, temos dúvidas sobre a natureza e a intensidade do que sentimos, mas não falamos sobre isso. E está bem que seja assim. Assumir um compromisso é o mais perto que podemos chegar de acreditar num compromisso para sempre.

Ocorre que “para sempre” é uma meta terrível. Acontece aqui e ali, na vida de um e de outro, mas francamente, é um acidente estatístico cada vez mais raro. As pessoas mudam, a vida delas muda, e os sentimentos mudam também. De eróticos e apaixonados passam a ser mornos e fraternos. As pessoas se gostam, até se amam, mas não mais se desejam. Ou não mais se compreendem, se alegram ou se admiram, ainda que se excitem mutuamente. Poderiam viver juntas o resto de suas vidas, mas para quê? Existe a possibilidade de recomeçar e refazer, de experimentar uma nova encarnação existencial e afetiva. Nada é certo, nada é seguro, sofrimento e solidão espreitam em cada esquina, mas, viver a dois, na ausência do amor e da alegria, é uma sentença de vida miserável. Diante dela, se não há como revertê-la, a porta costuma ser a melhor saída.

A outra razão que justifica as separações é que costuma haver felicidade depois delas.

No passado, as pessoas costumavam pensar no casamento como um fato definitivo. Casou, acabou. Agora a gente sabe que não é assim. Muitos estão se casando mais de uma vez ao longo da vida. Isso transformou o casamento numa espécie de namoro. Há uma leveza nele que antes não havia. Continua sendo terrivelmente triste quando acaba, mas a gente sabe (ou deveria saber) que vai ter outro daqui a pouco – pela simples razão de que milhões de pessoas estão no mesmo movimento. A qualquer momento do dia ou da noite haverá gente buscando novas parcerias afetivas. Se você se colocar no lugar certo, de uma forma tranquila e atenta, é provável que alguém apareça e estique a mão. Cabe a você aceitar ou não.

É bom lembrar que as pessoas são felizes no segundo e no terceiro casamentos, tanto ou mais do que no primeiro. Elas são felizes com diferentes pessoas, em tempos diferentes. Não existe uma hierarquia de amores decrescentes. Nada vai ter o gosto do beijo que se dá aos 14 anos e da paixão doentia que nos acomete naquela idade, mas quem em sã consciência gostaria de ficar prisioneiro desse primeiro amor para o resto da vida, abrindo mão de tudo que vem depois? Sempre aprenderemos novos jeitos de amar, de rir e de ter prazer. Cada novo amante – e cada novo amor – nos ensinará a ser feliz de outra maneira. As novas experiências afetivas nos transformam, aumentam o nosso repertório humano e ampliam a nossa sensibilidade. Elas nos ajudam a ver o mundo de outro jeito, e isso não pode ser ruim.

Sei que ao ler isso muita gente achará que me falta romantismo, mas não é o caso. Eu saio de casa todos os dias achando que vou achar a mulher da minha vida. Entro no banco, pego metrô, compro entrada para o cinema e faço fila no caixa do supermercado esperando por ela. E a verdade – a mais simples e luminosa verdade – é que ela já me apareceu ao menos quatro vezes. Cada vez era uma mulher diferente, cada vez eu era um outro homem, e cada vez eu tive, com essa pessoa inesperada (embora imensamente aguardada), uma relação apaixonada e única, absolutamente transformadora. Eu nunca saí como entrei de nenhum desses romances, e essa talvez seja o maior presente que eles me deram. Eu não sei se o amor é capaz de mudar o mundo, mas ele certamente tem um papel enorme em mudar a vida, os sentimentos e os horizontes de cada um de nós.

Vendo assim, já não fico tão triste pelos casais que se separaram. Talvez eles voltem a se encontrar. Talvez achem pessoas tão legais quanto aquelas que deixaram para trás. O certo é que a vida, a vida deles e delas, vai entrar em outro ritmo e avançar em outra direção. Novas experiências, novos sentimentos, novos planos, novas formas de alegria e de tristeza. Nova existência. Com sorte e uma atitude positiva, o outono da desilusão pode se transformar no inverno do renascimento.