A imprensa noticiou um “ataque” de purpurina a uma conhecida figura do nosso país, dentro de um salão em Porto Alegre. Dada a proximidade dos festejos, a notícia não seria assim tão incomum. Porém, a figura não era uma personagem carnavalesca, e o salão não era, tampouco, de um baile de carnaval.

O “ataque” purpurinado foi contra o deputado Jair Bolsonaro, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e consistiu, enquanto ato político, em um excelente escracho público.

Bolsonaro é um político de tendências fascistas. Inimigo declarado de todas as minorias e dos defensores dos direitos humanos, o deputado do Rio de Janeiro tem um histórico de declarações machistas, racistas, homofóbicas e xenófobas, além de defesas da tortura e da ditadura militar.

Bolsonaro já declarou que preferia que um filho seu morresse em um acidente, do que fosse gay; que não estupraria a deputada Maria do Rosário porque ela não merecia; que um filho seu jamais se apaixonaria por uma negra, pois foi bem-criado, longe de um ambiente de promiscuidade; que mulher deveria ganhar menos porque corre o risco de engravidar e dar prejuízo à empresa; que as famílias dos mortos no Araguaia não deveriam procurar por seus entes, pois quem procura por osso é cachorro; que a ditadura chilena deveria ter matado mais gente; que o erro da ditadura brasileira foi não ter matado mais gente, a começar pelo ex- presidente Fernando Henrique Cardoso; que as reservas indígenas prejudicam o agronegócio. A lista de absurdos proferidos é longa, mas somente esses exemplos já mostram o tipo de pessoa que Bolsonaro é e os motivos da execração.

O ex-capitão do exército também já foi condenado na justiça em diferentes instâncias por danos morais à deputada Maria do Rosário e por declarações homofóbicas feitas na televisão. Apesar de todo esse histórico, muitas pessoas, várias delas contrárias ao deputado, questionaram a validade e o alcance desse escracho público. As críticas iam desde o ato ser uma ação violenta até o fato de que purpurina na cabeça e gritos não leva a nada. Discordo de ambas.

O escracho público é uma importante ferramenta política que visa chamar a atenção e dar visibilidade a problemas e injustiças que são ignorados pelos poderes constituídos. A violência no ato contra Bolsonaro é puramente simbólica, como dólares jogados sobre a cabeça, e busca denunciar uma violência real alimentada por um discurso de ódio e intolerância. E sim, possui efetividade ao chamar a atenção da mídia e tensionar os poderes constituídos a tomarem atitudes cabíveis. As condenações sofridas por Bolsonaro tiveram ainda mais legitimidade por serem apoiadas por movimentos sociais e por significativa parte da população. Não se pode ignorar o poder que as pressões de movimentos sociais possuem sobre determinadas decisões. As recentes decisões do STF e do STJ, em 2011, e do CNJ, em 2013, a favor de direitos dos LGBTs só foram conquistadas por meio de muitas lutas e mobilizações, constituídas em diversas ações, de passeatas a escrachos.

Dessa maneira, volto a afirmar que a ação purpurinada (ou glitterizada) contra Bolsonaro foi genial e legítima. Tanto pela data escolhida, quanto pela substância utilizada, o escracho público contra o deputado se converteu em uma bela metáfora da luta LGBT.

O carnaval, festa tipicamente brasileira, é tido como o momento de liberalização dos corpos, de supressão das diferenças, quando foliões de diferentes origens e trajetórias se entregam a um frenesi democrático e purpurinado. No carnaval, transexuais, lésbicas, travestis, gays, bissexuais e héteros se encontram e celebram um falacioso Brasil igualitário. Esconde-se aí uma face perversa de um país em que os índices de diversos tipos de violências contra as populações LGBTs, principalmente as de classes sociais mais baixas, são alarmantes. Desmascarar esse lado perverso de nossa cultura se faz necessário, principalmente em momentos como o carnaval, em que atrocidades contra os LGBTs continuam, ainda mais silenciosamente, acontecendo.

Já a purpurina assume dupla face. Mais do que um símbolo do brilho e da irreverência da população LGBT, ela possui um peso. “Bicha não morre, vira purpurina!” é a frase final dita por Tatiana Issa no documentário “Dzi Croquettes”. Infelizmente, no Brasil, bicha morre, sim! São assassinadas aos montes e das mais desumanas maneiras. Como cinzas, essas mortes tem o peso de toneladas de purpurinas e são alimentadas por discursos de ódio proferidos por indivíduos como Bolsonaro.

Bolsonaro e seus eleitores são responsáveis por essas mortes. Espero que mais escrachos públicos sejam realizados, que a face feia do Brasil, personificada em Bolsonaro, seja cada vez mais combatida, que essa purpurina não saia do seu corpo e de suas roupas, que fique lá como manchas de sangue, e que ele passe a sentir o peso dessas mortes cotidianamente.

Por – Luan Aiuá Vasconcelos Fernandes -  mestrando em História pela mesma instituição na linha de História e Culturas Políticas. É membro dos grupos de pesquisas “História Política, Culturas Políticas na História” e “Dimensões culturais e políticas do exílio latino-americano”.