Escrito por Ivan Martins, da Época

Uma reportagem recente da BBC Brasil expôs um caso que daria filme: um sujeito que conseguiu enganar meio mundo ao se fazer passar por um fotógrafo de guerra brasileiro. Usando perfis falsos nas redes sociais, ele se apresentava às empresas jornalísticas com fotos roubadas de profissionais de verdade, embaladas em mentiras espetaculares sobre as condições em que as fotos haviam sido obtidas. Quando foi desmascarado pelos repórteres da BBC, ele apagou as contas na internet e evaporou, sem que se conseguisse descobrir qual sua cara verdadeira ou sua real identidade.

No meio da reportagem sobre o falso fotógrafo, havia um trecho que me atraiu a atenção: além de enganar empresas, o cara também mentia para mulheres, a quem seduzia (sempre por internet, nunca ao vivo) com sua falsa biografia de galã e surfista humanitário.

Pessoas que mentem dessa forma espetacular recebem um nome na psiquiatria, são mitômanas. Elas fabulam compulsivamente para obter atenção e afeto ou apenas para se sentirem importantes. O falso fotógrafo juntou a isso um esquema criminoso para ganhar dinheiro. Profissionalizou sua doença.

O que esse assunto tem a ver com uma coluna de relacionamentos? Tudo.

O mundo real, dentro e fora da internet, está cheio de gente capaz de contar histórias mirabolantes para obter um pouco mais de sexo e carinho. São mitômanos afetivos. A gente imagina que ninguém precisaria mais disso em 2017, porque a nossa enorme liberdade teria tornado as mentiras obsoletas, mas não é verdade. Caras casados continuam fingindo que são solteiros, garotas que namoram ainda dizem que não têm namorado. Em consequência disso, acabam vivendo vidas duplas – e enganando a todos com quem estão envolvidos.

O que eu acho irônico – e revelador – é que as mentiras não são mais necessárias. No mundo liberal em que vivemos, se o cara olhar nos olhos da mulher, disser que é casado, mas que, ainda assim, está louco por ela, a chance de se dar bem é grande. E vale o mesmo para as mulheres: se a garota informar que tem namorado, mas que, veja só, está livre na terça-feira à noite, será que o cara que gostou dela vai se declarar impedido? As pessoas estão acostumadas a lidar com uma certa sobreposição emocional, ao menos temporária. Só depois, passado um tempo, quem ficou envolvido começa a fazer demandas: “E aí, vamos acertar essa situação?”.

Pessoas que mentem sistematicamente para seduzir fazem isso porque gostam da mentira. Ela não é mais condição para obter sexo. A mentira é o barato do mentiroso. Existe um gozo na manipulação furtiva do outro, um prazer que vem do poder de criar uma trama, enganar e nunca ser pego, em prevalecer espertamente sobre os demais. É a mitomania.

Conheci um motorista, faz anos, que tinha mulheres em três bairros diferentes de São Paulo. Ele levava uma vida infernal, inventando histórias, correndo daqui para lá, sempre estressado, sem dinheiro e sem tempo. O prazer dele, eu tenho certeza, não era transar com as três mulheres – ele nem tinha como fazer isso direito. Ele gostava de mentir para elas. Devia sentir um prazer extraordinário no enredamento em que mantinha aquelas três pessoas e suas famílias, prazer que justificava toda correria e confusão. Acho que era mitômano, assim como o pseudofotógrafo.

Faz uns dias, estava jantando com amigos, alguém perguntou se eu preferia sincerões ou cafajestes. Uns contam tudo, torturam as pessoas que gostam deles com detalhes desnecessários sobre o que sentem ou fazem. Os outros mentem ou omitem qualquer informação que possa afastar a pessoa em quem estão interessados. Eu não prefiro nenhum deles. O sincerão me parece um exibido que extrai prazer de falar de si mesmo, indiferente ao sofrimento de quem gosta dele. O outro é incapaz de dar ao parceiro informações que lhe permitiriam decidir por conta própria. O sincerão é narcisista, o cafajeste egoísta. Não gostaria de ninguém assim comigo.

Esses tipos humanos complicados – mitômanos, cafajestes, sincerões – habitam a fronteira entre a verdade e a mentira, por onde circula parte importante das relações humanas. Alguns têm dois pés no terreno da doença, outros tropeçam em falhas geológicas de caráter. Juntos, nos lembram que é difícil renunciar ao prazer em nome de virtudes antigas como sinceridade e modéstia. São gente como nós, apenas com uma mola solta na região moral do cérebro. É fácil compreendê-los e perdoá-los de longe. De perto, quando nos machucam com suas mentiras, só dá raiva.