O primeiro gay que eu conheci deixou uma impressão incômoda. Ele se chamava Deda e era capitão do time de futebol da rua, ponta-direita de arranque espetacular e tiro certeiro. Eu tinha 11 anos, ele teria 14 ou 15. Um dia, soube que estava oferecendo lanterninhas de bolso aos meninos do time em troca de sexo na construção abandonada da esquina. Me assustei com a história e passei e evitá-lo, assim como fizeram outros garotos. O time de futebol se desfez rapidamente. O ano era 1971.

Na segunda vez que o assunto entrou na minha vida foi para corrigir a impressão inicial. Eu tinha 17 anos e um amigo do colégio teve a coragem imensa de se confessar apaixonado por outro garoto do bando. O objeto da paixão dele, o mais inteligente e promissor entre nós, reagiu de forma afetuosa. Se disse lisonjeado, mas impossibilitado de corresponder com mais do que amizade. Esse comportamento sereno ditou a atitude geral do grupo e abriu espaço para que o amigo pudesse ser o que era, ao menos entre nós. O ano era 1977.

Hoje, terça-feira, 14 de junho de 2016, o jornal que eu assino traz na capa detalhes sobre o assassinato de 49 frequentadores de uma boate gay em Orlando, nos Estados Unidos. Como todos já sabem, eles foram mortos por um psicopata que entrou na boate disparando com um sorriso nos lábios um fuzil AR-15. O detalhe perverso que emergiu no noticiário de hoje é que o assassino era frequentador da boate e de aplicativos de encontros gays, segundo diversos depoimentos ao jornal Orlando Sentinel. O que isso significa?

Entre os mortos da boate americana poderia estar o capitão do time de futebol da minha infância e o meu amigo de colégio, além de dezenas de homens homossexuais a quem eu admiro, respeito e de quem gosto profundamente.

Morrer pelas mãos de um fanático religioso é algo que pode acontecer a qualquer um nos dias que correm. A agenda política desses caras inclui cada vez mais inimigos. Mas ver dezenas de vidas obliteradas por um sujeito que apenas odeia gays é mais do que desconcertante. Nos dá a impressão de que o mundo se move vertiginosamente para trás.

Sempre que deparo com essas formas acentuadamente criminosas de homofobia – insultos, agressões físicas, assassinatos –, eu me pergunto o que leva algumas pessoas a achar que têm o direito de julgar, controlar e punir o comportamento sexual ou afetivo dos outros.

Que sentimentos obscuros fazem alguém se sentir incomodado por um homem que beija outro homem ou por uma mulher que se deita apaixonadamente com outra mulher, a ponto de atacá-los? Eu não encontro resposta que faça sentido.

Acredito que todos e cada um de nós têm preconceitos inconfessáveis. A sanidade psíquica, o senso de higiene social e a decência básica fazem com que essas opiniões permaneçam soterradas. A hipocrisia, alguém já disse, é a homenagem que o vício presta à virtude. Não me incomoda que alguém esconda seus maus sentimentos. Isso se chama civilização. Intolerável é que ideias preconceituosas e opressivas sejam exibidas despudoradamente, sobretudo na forma de violência.

Já deveria ser óbvio, na segunda década do século XXI, que a capacidade de amar não cabe numa única caixinha, na qual existe apenas uma possibilidade: homem ama mulher e mulher ama homem. Desde tempos imemoriais as pessoas violam essa regra sistematicamente, porque o desejo e os sentimentos delas não se encaixam no molde.

Em 1990, a psiquiatria deixou de considerar os homossexuais como doentes. Em 2011, as leis no Brasil mudaram para que gays pudessem se casar legalmente. Infelizmente, muitos líderes religiosos ainda não aceitam que as pessoas transem, se apaixonem, vivam juntas e criem filhos com gente do mesmo sexo. Eles são a parte que não avança da sociedade.

A imprensa informa que o assassino de Orlando era muçulmano, embora nascido e educado nos Estados Unidos. Aqui, o fundamentalismo de alguns católicos e evangélicos fornece justificativa moral para a intolerância contra gays, lésbicas e transgêneros. As mesmas pessoas que pregam amor e compreensão universais negam a um grupo enorme de seres humanos o direito a sua identidade e felicidade essenciais. Metem-se na vida privada dos outros para controlá-la.

Oportunistas de diferentes matizes políticos também perceberam que existe um filão a ser explorado na homofobia. Os profissionais do ódio ganham prestígio articulando e propagando o discurso contra homossexuais no parlamento e alhures. Junto com os fundamentalistas religiosos, fazem campanha sistemática contra qualquer iniciativa de política pública que tente combater a discriminação nas escolas. São favoráveis à opressão das minorias desde a mais tenra idade.

A intolerância organizada rende votos até entre pessoas instruídas, que compram essa mercadoria contaminada na forma do discurso politicamente incorreto. Fazem o jogo da opressão e se sentem libertários. Reforçam o obscurantismo, mas se acham modernos. É curioso.

A verdade elementar que o homicida de Orlando não entendeu – e que os ideólogos brasileiros da discriminação tampouco entendem – é que todos temos o direito de amar livremente. Essa é uma vocação humana natural e profunda, que parece ter sido instalada no núcleo das nossas células elementares.

Amar e desejar são verbos essencialmente espontâneos. Podem no máximo ser sufocados, ao custo de grande infelicidade. Eles brotam da nossa biografia como coisa pronta, que nos arremessa ao terror e ao êxtase de ser quem somos e de nos encontrarmos no outro – igual ou diferente de nós – de braços e coração abertos.

Que arrogância pretende ditar a forma e o destino desse sentimento?

Que insanidade pretende punir desvios de algo que não tem regras?

Que forma mórbida de tristeza pretende sufocar a alegria e o prazer de milhões?

Não, nada disso faz o menor sentido. As mortes de Orlando não fazem sentido. O discurso de ódio e intolerância por trás delas não faz sentido. A lógica de quem suporta intelectualmente essa barbárie em nome de Deus não faz sentido.

Só fazem sentido liberdade, tolerância e solidariedade.