Autor: Iven Martins, da Época

Uma das coisas que mais atrapalha a sexualidade das mulheres são os homens. Elas ficam tão preocupadas com o que nós vamos achar delas durante o sexo que muitas vezes não conseguem ficar à vontade e ser felizes.

Outro dia, uma mulher de mais de 40 anos me contou que apenas recentemente – “muito recentemente” – tinha conseguido ser ela mesma na primeira transa com um cara. “Eu tinha medo de me soltar demais e ele me achar vagabunda”, ela disse. “Ficava presa, desconfortável. Não era gostoso”.

Foi preciso que uma amiga dissesse a ela que os homens também gostavam de safadezas na primeira transa para que ela começasse a se soltar.

Eu nem imagino quantos milhões de mulheres existem por aí presas na mesma situação.

Na bolha social em que eu vivo – a classe média urbana instruída e liberal – esse tipo de sentimento moralista não deveria existir, mas existe. É muito provável que mulheres modernas e independentes ainda tenham na cabeça essa mesma mentalidade repressora que é passada de mãe para filha há mais de cinco mil anos.

Fico pensando como são as coisas fora da bolha liberal, naqueles pedaços físicos e mentais do Brasil onde o moralismo sexual é levado a sério e onde homens conservadores ainda dizem às mulheres como elas deveriam se comportar durante o sexo para parecerem respeitáveis.

É claro que repressão sexual não é exclusividade das mulheres. Todo mundo chega ao momento do sexo trazendo na cabeça um monte de lixo.

Os homens, por exemplo, não podem broxar em hipótese alguma. Homem não chora e nem broxa, certo? Eles também têm de manter uma postura viril durante o processo. Nada de fio terra, por favor. Se o cara gostar de compartilhar umas fantasias esquisitas, vai ficar calado, porque não sabe o que a moça pensará dele. Se sentir impulso de dizer eu te amo naquele momento de redenção depois do orgasmo, se der ganas de ficar abraçadinho falando coisas doces, vai esconder essa ternura toda, porque lhe disseram que não pega bem. Melhor tomar uma ducha revigorante e voltar correndo para dar a segunda e se possível a terceira. É isso que impressiona e cativa as mulheres, certo?

Para as mulheres, a repressão age de maneira ainda mais brutal e restritiva. Elas não devem ter ou demonstrar prazer. Afinal, mulher que gosta de transar, mulher que gosta de dar, não presta. Mulher que gosta do corpo do homem, do pinto do homem, não vale nada. Mulher que goza e tem prazer não é de confiança – se fica louca assim comigo, pensa o macho desconfiado, o que faz quando eu viro as costas? O que já não andou fazendo antes de mim?

Essa mensagem repressora é passada para as meninas o tempo todo, eu imagino. Em casa, na escola, na igreja, nas conversas com as amigas. As meninas vigiam a sexualidade uma das outras, como os garotos também se vigiam. Qualquer sinal de desvio é punido com piadas, recriminações e bullying. É um sistema de controle espontâneo e eficaz. O espantoso não é que as mulheres cheguem à idade adulta cheia de grilos. O espantoso é que não cheguem. O notável é que tantas mulheres expostas à repressão sexual transem com gosto e liberdade.

Alguns homens, mesmo inconscientemente, atuam como xerifes da repressão sexual feminina. Outro dia, um cara que me contou que tem dificuldade com mulheres sensuais. Se a garota transar bem com ele, se der gostoso e perecer feliz, imediatamente acende uma luz amarela na cabeça dele: essa menina é meio puta. O passo seguinte, segundo ele, é ficar atormentado e paranoico, achando que a moça que transa tão bem com ele gosta de dar para todo mundo. Em dois tempos a relação desanda e acaba.

Esse sujeito sabe que os seus sentimentos estão errados e tenta arrumá-los fazendo análise. Outros nem sabem. Têm a mesma sensação de repulsa pela sensualidade da parceira e acham que estão certos. Tentam reprimir na cama o comportamento e os sentimentos dela. Ou demonstram claramente o seu desagrado e vão embora, deixando a moça traumatizada.

Está cheio desses caras assim na internet. Eles falam mal de “mulher rodada”, criticam as que transam “como cadelas no cio”. Eles sofrem um desconforto profundo com a sensualidade feminina e têm uma necessidade incontrolável de controlá-la. Por trás disso, eu acho, está o medo inconfessável de não satisfazer a mulher sexualmente e de ser enganado por causa disso. O cara que age como repressor pode alegar razões morais, mas, fundamentalmente, tem medo de ser traído.

Como homens e mulheres resolvem os problemas causados pela repressão sexual? Com análise, com terapia, com psicólogos. Alguém tem de nos ajudar a tirar o lixo que colocaram na nossa cabeça e que atrapalha a nossa vida sexual e a nossa felicidade. Mas há uma coisa que nós podemos fazer por conta própria, como indivíduos e como casais: exercer a intimidade.

Se você transar sempre com pessoas diferentes, vai ser difícil lidar com as suas inibições ou alterar as coisas que incomodam. A primeira transa é sempre uma grande descoberta – a nudez do outro, o jeito do outro, a química entre vocês – mas os sentimentos e sensações não se aprofundam. É gostoso, mas tem preço. Ao transar sempre com pessoas diferentes, a gente tende a repetir o mesmo comportamento, a mesma performance, sem tempo ou espaço emocional para se moldar ao outro e permitir que ele se molde aos nossos gostos.

Eu sempre acho que na primeira transa tem uma grande dose de teatro. Depois é a gente vai ficando nu de verdade.

Digo isso, claro, porque sou fã da intimidade. Eu acho que só na intimidade, os nossos desejos e sentimentos reais vêm à tona. Na intimidade – que depende de afeto e convívio – a gente consegue sentir coisas e fazer coisas que de outro jeito não sentiria e não faria. Intimidade traz confiança, e com ela tudo fica mais fácil no sexo.

O que as mulheres reprimidas e os homens que reprimem as mulheres precisam entender é que o prazer é uma coisa pessoal, absolutamente íntima. Cada um de nós tem o seu. Se as pessoas passarem a vida tentando se adequar ao que os outros dizem que é certo ou permitido, terão uma vida sexual das mais tristes. A liberdade existe para que a gente procure a nossa própria expressão de felicidade, no sexo e no resto das coisas. Fora da liberdade e do respeito mútuo, não há esperança.