Fonte: Ivan Martins, da Época

Belchior ficou famoso em 1976, quando eu tinha 16 anos. As músicas dele invadiram o rádio e a televisão como avalanche, na voz anasalada, rouca e quase fanha dele, e nas versões impecáveis de Elis Regina. De repente, aquele bigodudo visivelmente tímido, com nome e cara estranhos, estava por toda parte.

Como na década de 1970 não havia internet ou TV a cabo, todo mundo ouvia e assistia basicamente à mesma coisa. Quando um LP fazia sucesso, o país inteiro escutava. Tocava em todas as rádios. O artista aparecia em todos os canais de TV. Éramos um país de unanimidades – devidamente tutelado pela censura da ditadura militar.

Sou incapaz de reproduzir a minha surpresa – e a minha exaltação – ao ouvir pela primeira vez aquele cantor precário, que exibia versos como eu nunca tinha ouvido. Desde Caetano e Gil, o sotaque nordestino era familiar ao Brasil inteiro, mas o que Belchior cantava e a maneira como ele cantava eram novos. Não tinha a ver com a Tropicália ou com a tradição do samba. Não era rock. Suas canções em primeira pessoa eram introvertidas, lamentosas, tristes. Claramente autorreferentes e autobiográficas. Continham alusões literárias que conhecíamos, e outras que não. Mas elas sempre falavam diretamente aos jovens, sobre os jovens, de uma forma apaixonada e incendiária, como se as barricadas de maio de 1968 ainda estivessem nas ruas de Paris. Eram canções românticas e politizadas ao mesmo tempo, de uma maneira que fazia sentido em nossas vidas.

A maneira de cantar de Belchior – declamada, quase falada, em voz grave e rouca – também era original. Não era bonita, mas transpirava autenticidade, e nos pegava pelas vísceras. A mim lembrava Bob Dylan, na maneira como o poema atropelava a melodia, e talvez fosse essa a inspiração de Belchior.

Para a geração que estava saindo da ditadura e havia crescido com os ídolos da geração anterior – como Chico Buarque –, Belchior era uma revelação e um achado. Tínhamos enfim a nossa voz, e ela falava de amor e sexo, arte e rebeldia, falta de grana, discriminação, medo da polícia. Belchior se dizia um cara comum, latino-americano, sem parentes importantes. “Eu sou como vocês”, ele cantava. Nós acreditávamos.

Seu disco Alucinação, lançado em 1976, é meu favorito até hoje. Foi comprado com o dinheiro do meu primeiro salário. Há centenas de discos melhores e mais importantes, mas quando eu escuto esse eu volto no tempo, eu me comovo, eu me assombro – de novo, pela milésima vez – com a beleza dos poemas e da música. Isso acontece porque esse disco, assim como o seu autor, é parte da minha vida, como poucos discos e cantores são.

Vi Belchior pessoalmente uma única vez, num show em São Paulo, no final dos anos 1990. Era numa estação do metrô, se bem me lembro, todos sentados no chão ao redor dele, que dividia o espetáculo com um músico uruguaio cujo nome eu não recordo. Não foi um bom show, mas permitiu que eu me aproximasse dele e que a minha então namorada tirasse uma foto, esta que está aí. No domingo, quando Belchior morreu, ela mandou a imagem preciosa por mensagem. Um gesto lindo, que eu agradeço publicamente: valeu, Gabiroba!

Para celebrar a vida e a obra de Belchior, me propus a fazer uma lista. São dez lições de amor e vida extraídas de suas músicas. Não é uma lista definitiva, temo que não seja sequer uma boa lista, mas eu gostei de montá-la. Espero que vocês curtam lê-la. Sobretudo, espero que corram para escutar as músicas de onde esses pedaços silenciosos de poesia emergiram. Os gregos antigos diziam que a gente não morre enquanto alguém se lembrar de nós. Belchior vive, portanto, enquanto ouvirmos e cantarmos suas canções.

Eis a lista.

1.
“Meu bem, o lugar é onde você quer que ele esteja
Não quero o que a cabeça pensa, eu quero o que a alma deseja
Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo, tenho pressa de viver”

Coração selvagem

O romantismo é uma das marcas registradas de Belchior. O amor está presente em todas as suas canções, como exigência existencial. Mas não o amor comportado e submisso. Tampouco o amor dos abandonados que se lamentam. O amor dele é viril, arrebatado, rebelde. “Vem viver comigo, vem correr perigo, vem morrer comigo”, ele diz na mesma “Coração selvagem”. A atmosfera é a dos filmes europeus dos anos 1960, em que os protagonistas morrem jovens e apaixonados, com um sorriso nos lábios. Belchior canta que a paixão tem de ser vivida até as últimas consequências, porque sem ela tudo é tédio, concessão e covardia. O amor segundo Belchior é para os destemidos.

2.
“Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas me interessa mais”

Alucinação

O que a gente tem aqui é uma declaração de engajamento com o mundo, à maneira dos poetas e dos românticos. Em vez do pessimismo do filme Laranja mecânica, em vez das “teorias” que abrem a canção (seria o marxismo?), Belchior se diz interessado nas coisas do dia a dia, no amor e na mudança. Esse sentimento se espalha por muitos de seus versos: a cidade, as pessoas comuns, a melancolia, o desejo de felicidade. Isso faz tanto sentido hoje quanto fazia nos anos 1970. Ou mais. O mundo precisa urgentemente de gente que ajude a transformá-lo. E o mundo precisa de amor, em todas as suas formas, para sair do pântano de ódio em que nos metemos. “Amar e mudar as coisas” continua a ser um slogan atual – e uma linda receita existencial.

3.
“Eu sou apenas um rapaz
Latino-americano
Sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes
E vindo do interior”

Apenas um rapaz latino-americano

Os anos passam e esses versos continuam ecoando. Ao contrário do sujeito que se afirma pelo parentesco e pela riqueza, pelo nome importante na cidade, Belchior se anuncia como um brasileiro sem pedigree – e extrai grandeza disso. Na sequência dos versos, ele vai dizer à elite do sudeste americanizado que “um tango argentino” lhe cai bem melhor que um blues. É uma provocação atualíssima, como aliás a canção inteira. Num país que viu a classe média se ampliar, mas que não consegue tratar seus pobres como cidadão, ainda é essencial dar a palavra a quem não tem “parentes importantes”. À sua maneira poética e contundente, Belchior politizava sua própria biografia em 1976 – e continua politizando a biografia dos milhões de jovens que o escutam, 40 anos depois.

4.
“Gente da minha rua
Como eu andei distante
Quando eu desapareci
Ela arranjou um amante
Minha normalista linda
Ainda sou estudante
Da vida que eu quero dar”

Tudo outra vez

Assim como a própria vida, as músicas de Belchior são encharcadas de nostalgia. O diálogo entre o passado e o presente é permanente, abrindo espaço para considerações e metáforas lindas. A lição é óbvia: ninguém vive sem passado. Nossa vida amorosa, sobretudo ela, navega sobre um mar de memórias, como a normalista de Belchior. O amor de hoje e o de ontem se entrelaçam. As dores de ontem ecoam nas dores de hoje. Nós somos o resultado sempre provisório desse embate. E temos, de uma forma ou de outra, de nos haver com eles. Os artistas, com sua sensibilidade exacerbada, voltam periodicamente ao passado para se reabastecer de ideias e emoções – e nos carregam com eles, para o interior do nosso próprio passado, como faz Belchior.

5.
“Aí um analista amigo meu disse que desse jeito
Não vou ser feliz direito
Porque o amor é uma coisa mais profunda
Que um encontro casual”

Divina comédia humana

A ironia faiscante desses versos – o romântico ri da racionalidade do analista – camufla a celebração da liberdade erótica, que atravessa toda a obra de Belchior. Há corpo e desejo nas músicas dele, há beijos e abraços, há batons e dobras de roupas, há carros, cinemas e quartos de hotel. Tudo é carnal e sensual, sem deixar de ser afetuoso e romântico. A geração que descobriu o amor livre o celebrou em prosa e verso. Belchior mais que todos, com uma eloquência e um sentimento capazes de nos sensibilizar até hoje. Em suas músicas, o amor nunca é casto, nunca é comportado, e é sempre libertador.

6.
“No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa
Que não nos serve mais”

Velha roupa colorida

Belchior e a sua geração de músicos – que inclui gente como Ednardo, Amelinha e Fagner – fizeram uma espécie de atualização da música brasileira, que andava presa à geração gloriosa de Chico e Caetano. Mas Belchior, mais que os outros, tinha um sentimento forte de ruptura com o passado – não só estética e geracional, mas filosófica. A ideia do tempo e suas revoluções, a noção de impermanência e transformação, estão presentes em toda parte. Esse é um aspecto importante de seu trabalho, que convive lado a lado com a nostalgia. Como se ele dissesse: veja, lá está o passado (“Quando eu não tinha o olhar lacrimoso, que hoje trago e tenho”), mas nós estamos aqui, e é preciso abraçar o nosso tempo e reinventá-lo na medida de nossas necessidades. Essa é uma ideia tão importante ainda hoje, tão necessária, que obviamente nos afeta e nos comove. Sobretudo porque o mundo hoje – mais até do que nos anos 1970 – parece avançar em direção ao futuro com ideias e as roupas sinistras do passado.

7.
“Em cada esquina que eu passava
Um guarda me parava
Pedia os meus documentos
E depois sorria
Examinando o 3×4 da fotografia
E estranhando o nome do lugar
De onde eu vinha”

Fotografia 3×4

A geração de Belchior foi muito afetada pela ditadura militar. Na música dele, a repressão e o Estado autoritário são representados pela figura do policial. Ele pede documentos e oprime o migrante pobre. É ele que, em outra música, defende “o seu amor, em nossa vida”. Assim, Belchior faz uma denúncia política que não parece política, mas é percebida como tal por muito mais gente. Quarenta anos depois das suas músicas, o Brasil ainda discute casos diários de violência policial, de mortos em confronto com a polícia e de abuso de autoridade. A ditadura acabou faz tempo, mas o guarda continua pedindo documentos – e não sorri mais.

8.
“Não sou feliz, mas não sou mudo
Hoje eu canto muito mais”

Galos noites e quintais

Num mundo que vende felicidade a granel, a melancolia criativa de Belchior é um bálsamo contra a tolice e a superficialidade. Sim, eu não sou feliz, mas quem é? Ao menos eu penso, critico, canto. Acho isso tão bonito. É, fundamentalmente, uma coisa de artistas, mas serve a todos nós. O direito à tristeza, digo. A necessidade de expressar nossa insatisfação com a vida. Quando nos pedem, diante de nossas dores e de nossas indignações, que nos curemos rápido, que nos adaptemos, que exibamos um sorriso de contentamento perante um mundo perverso, temos o direito de parodiar Belchior e dizer: não sou feliz, mas não sou burro, não me amole.

9.
“Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram
E o sinal está fechado para nós
Que somos jovens”

Como nossos pais

Esses versos são tão lindos e tão atuais. A ideia de que a juventude foi derrotada e o poder ocupado por um monte de homens velhos, de retórica e pensamento autoritários, está muito presente nos dias de hoje. A música falava da ditadura e da geração de acomodados que ela havia produzido, mas nos soa estranhamente familiar. É simbólico que Belchior tenha morrido no momento em que jovens rebeldes voltam a ser espancados e presos nas ruas do Brasil, como a geração dos seus pais. Dizem que Belchior estava preocupado com a situação política do país nos últimos dias e que planejava sair de seu esconderijo gaúcho para voltar a cantar e tomar posição. Teria sido bonito.

10.
“Não cante vitória muito cedo, não
Nem leve flores para a cova do inimigo
Que as lágrimas dos jovens são fortes como um segredo
Podem fazer renascer um mal antigo”

Não leve flores

Alguém já disse que a palavra mais importante do rock é garota. Pois na música de Belchior a palavra mais importante é jovem. Os jovens na música dele representam liberdade, alegria, coragem e generosidade. O que há de melhor no mundo. A gente sabe que não é assim, mas essa é uma ideia tão sedutora que está fadada a nos encantar por muito tempo, talvez para sempre. Agora, como nos anos 1970, continuaremos a ter esperanças no idealismo dos jovens e em sua capacidade de renovar o mundo – inspirados, entre outras coisas, pela música de Belchior.