Por Ivan Martins, Revista Época

“Emoticons ajudam, mas não resolvem o problema”, diz minha amiga. Ontem, ela recebeu pelo telefone uma mensagem inesperada do rapaz com quem anda saindo, e não soube direito como responder. Ele escreveu “love you”, assim, em inglês e com letras minúsculas. Ela pensou um pouco e mandou três coraçõezinhos. Fofa, mas contida. Não dava para dizer nem “me too”, o famoso “eu também” em inglês, perguntei? “Não”, diz ela, sem hesitar. “Ainda não.”

Conheço essa moça há muitos anos e nossas conversas são sempre parecidas. Ela é prática e feliz, enquanto eu faço a parte romântica do dueto. Um tempo atrás, ela me disse: pareço homem e você parece mulher. Na hora fiquei meio escandalizado, depois admiti que estava certa, ao menos do ponto de vista convencional. Ela saía feliz com um monte de gente e raramente se envolvia. Eu vira e mexe dizia estar apaixonado, frequentemente sofrendo. Não é assim que dizem que são homens e mulheres?

Ontem, por causa do “love you”, a conversa tomou outra direção. Ela me perguntou quanto tempo eu demoro para dizer “eu te amo”. Respondi que não sabia. Depois, pressionado, admiti que demoro muito. Na verdade, falei “eu te amo” para pouquíssimas pessoas. Acho que cabem numa mão. A amiga riu, gostosamente: ela, que parece tão resolvida, e mais jovem do que eu, já disse “eu te amo” para um monte de gente. No final, apesar da aparência em contrário, talvez não sejamos tão incomuns. Homens resistem e mulheres se entregam aos sentimentos, não é mesmo?

Na verdade, acho que esse negócio de “eu te amo” não tem a ver com o sexo das pessoas, mas sim com personalidade, maturidade e estado de espírito delas, que também pode ser chamado de carência. Essas palavrinhas – e tudo que vai por trás delas – estão dentro de um pacote que explica como a pessoa enxerga o amor e o sexo, e seu próprio comportamento em relação a eles.

Algumas pessoas, como a minha amiga, conseguem se relacionar sexualmente com muita gente sem se sentir pressionada a se acasalar ou se apaixonar. Quando acontece, ela abraça. Age sem culpa e sem pressa. Outras pessoas são diferentes. Têm dificuldade em desfrutar o prazer sem pendurar nele um nome pomposo. Diante de um sexo bom, de um convívio gostoso, sentem-se na obrigação de amar, namorar, quem sabe mesmo casar. É o tipo de gente que diz “eu te amo” na terceira transa, como o cara da minha amiga. Essas pessoas parecem ter dificuldade com a pluralidade de suas próprias sensações – algo com que minha amiga convive sem nenhum conflito. Ela parece separar com naturalidade aquilo que é apenas sexo e aconchego daquilo que realmente se tornou envolvimento.

Se prestarmos atenção, veremos que nossos sentimentos são mais variados do que um simples “amo” ou “não amo”. Com o tempo, a gente começa a perceber sutilezas. Percebe, por exemplo, que gostar de alguém e transar gostoso não é a mesma coisa que estar apaixonado. Que sair gostosamente com alguém de vez em quando não é o mesmo que desejar namorar. A experiência nos mostra que conexões profundas entre duas pessoas são raras, e sugere que talvez devêssemos deixar as grandes palavras e os compromissos para quando elas se manifestassem. Não antes, e certamente não depois.

Outro dia, ocorreu-me que existe uma escala de sentimentos. Nela, é possível beijar sem transar. É possível transar sem gostar. É possível gostar sem querer namorar. É possível namorar sem amar. É possível até amar e recusar uma relação séria, por um monte de razões. A principal delas é que a gente pode enlouquecer por gente perdida ou maluca, capaz de nos fazer muito mal.

Na conversa com a amiga, falamos dos sinais que surgem quando alguém está pronto para namorar – e eles parecem variar de pessoa para pessoa. Para ela, tem tudo a ver com sexo. Ela sabe que está pronta, por exemplo, quando vai ao sex shop comprar badulaques para o homem com quem está saindo. Percebe que ele se tornou especial. Para outros, talvez a maioria, namorar passa pela vontade constante de procurar, pelo prazer de que a pessoa esteja por perto, pela saudade, pelo desejo de compartilhar e contar.

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Infelizmente, nem sempre a gente tem vontade de namorar. Há encontros íntimos e gostosos que não criam essa necessidade. Algumas pessoas, por alguma razão misteriosa, entram em nós e permanecem ali, mesmo quando estão longe. Com essas a gente quer namorar. Com outras, passado o momento de prazer e de carinho, nada acontece. Podemos ficar com elas uma dezena de vezes e será bom – mas elas nunca ocuparão o tal espaço dentro de nós, nunca nos apaixonaremos por elas. Se for assim, para que namorar?

Na maioria das vezes  – acho importante frisar isso –, a dificuldade em se apaixonar não vem do outro, mas de nós. Simplesmente não estamos prontos. Por estarmos presos a outros sentimentos e incapazes de passar da página 2 com qualquer nova pessoa. Ou por estamos deprimidos ou preocupados demais com as atribulações da vida. Nesses dois casos, a presença de alguém nos dará prazer, vai nos aliviar e nos confortar, mas será incapaz de nos arrebatar.

Haverá também quem ache que se envolver é ruim e que se apaixonar atrapalha. São minorias, eu acho. É gente que deseja estar livre o tempo inteiro, para transar com todo mundo. São os ingênuos e ingênuas. Ainda não perceberam que quantidade não é felicidade, e muito menos intensidade.

Sexo casual é o que a gente faz enquanto procura alguém com quem o sexo deixará de ser casual.

Mas essas são opiniões de um sujeito romântico, que acha o amor uma das grandes aventuras da existência, algo a ser tratado com atenção e desvelo, e sem falsificação. Por ser raro e precioso, não deve ser confundido com outras coisas boas que andam a seu redor, mas não são ele. E nunca, nunca deveria ser ignorado, exceto quando nos faz mal.