Escrito por Ivan Martins, da Época

Se eu me lembro bem, na adolescência a gente é capaz de se apaixonar uma vez por mês. Cada vez que acontece, podemos iniciar relações que nos parecem destinadas a ser eternas, mas que costumam ser apenas intensas e breves. São fogos de artifício emocionais que nos põem em contato com uma forma aguda de felicidade. Muitos a perseguirão pelo resto da vida, imaginando se tratar do verdadeiro amor.

Depois da adolescência – disso eu tenho certeza –, cada relação é uma conquista existencial. A gente precisa achar alguém que nos apaixone e é necessário que essa pessoa também se encante de nós. Para que algo além de sexo aconteça, os dois precisam ser capazes de se envolver. Minha experiência sugere que entre adultos essa sequência de eventos não é banal ou corriqueira, e que a última parte dela, a capacidade de se envolver, vem se tornando mais rara.

As pessoas querem amar com a volúpia dos adolescentes, mas sentimentos adolescentes não resistem à intimidade e ao convívio.

Muita gente atribui esse comportamento de homens e mulheres à sem-vergonhice, como se a incapacidade de amar fosse uma decisão consciente. Dizem que homens em geral fogem do envolvimento e que mulheres modernas repelem os relacionamentos sérios. Eles e elas estariam interessados apenas em variar os parceiros sexuais, adiando para o infinito qualquer escolha definitiva – embora todos saibamos que não há mais nada de definitivo nas escolhas afetivas. Elas duram o tempo que têm de durar.

Eu tenho certeza de que a indisponibilidade afetiva nada tem a ver com sem-vergonhice, nem com a suposta racionalidade de quem desejaria “aproveitar a vida”. O buraco emocional é mais profundo. Muita gente tem dificuldades sérias em se apaixonar, gostar dos outros, sair da casca de si mesmo e se envolver. Essas pessoas são atraídas pela beleza e pela personalidade alheia, mas isso não dura. Depois de um ou dois encontros, o interesse se esvai. Logo a pessoa estará de novo na pista, olhando para os lados, achando todo mundo irresistível, até que a intimidade física e o convívio destruam a ilusão e reinstalem o vazio.

Veja bem: todos têm direito a procurar indefinidamente a outra metade da sua laranja, e ninguém é obrigado a se apaixonar pela primeira ou pela décima pessoa com transa. Mas, quando depois de muito tempo, e muitas e muitas laranjas, o cara ou a moça não acha ninguém que toque seus sentimentos, talvez seja hora de deitar num divã e falar sobre isso. O mundo não pode ser composto apenas de gente inadequada.

Também não é só culpa dos outros a incapacidade de estabelecer relações. Nem todas as mulheres estão cheias de defeitos íntimos. Nem todos os caras são bacanas somente até a página dois. Há um monte de gente que continua interessante uma semana, um mês e um ano depois de as termos conhecido biblicamente. Quando a gente passa o tempo todo procurando explicações no caráter dos outros para a nossa dificuldade em suportar o convívio, talvez o problema não esteja nos outros.

Vocês entenderam, não é?

Acho que reina entre nós um estado de adolescência tardio e prejudicial que eu chamo de adolescimento. Ele vende ilusões irrealizáveis e atrapalha na hora de estabelecer relações. O adolescimento exige paixões arrebatadoras, mas não explica como mantê-las, porque adolescentes não precisam sustentar emoções ou relacionamentos. Eles estão experimentando e descobrindo. Tudo para eles passa rápido, permitindo que vários amores aconteçam num curto espaço de tempo, para que o aprendizado emocional se realize. Isso faz todo o sentido aos 13 e aos 20 anos, mas não aos 30, aos 40 ou aos 50 anos. Nessas idades, já deveríamos ser capazes de nos envolver de forma duradoura e sustentar relações construtivas – e não por motivos morais.

É que os prazeres da vida adulta são imensos e fazem parte da realização existencial humana. Amor, casamento, casa, bichos, filhos, projetos de trabalho, viagens, família, realizações comuns. Isso tudo nos faz felizes de uma forma que os adolescentes desconhecem. Mas, para chegar às formas adultas de felicidade, é preciso superar o adolescimento e estabelecer parcerias românticas profundas, que não sejam trocadas cada vez que aparece outra pessoa atraente e desperta a nossa curiosidade. Ser adulto é ser capaz de renunciar.

Faz uns dias, conversei com um quarentão que voltou melancólico do Rock in Rio. Ele foi atrás de juventude e encontrou apenas decepção. A música estava boa e as garotas eram lindas, mas, pela primeira vez, ele sentiu que aquilo não lhe pertencia. Ficou bêbado, deslocado, bateu em retirada. Voltou a São Paulo triste e, do meu ponto de vista, mais maduro. Talvez a experiência abra espaço para novos sentimentos e realizações. Ou não. Ele pode culpar a escolha das bandas e a atmosfera policial do Rio de Janeiro pelo seu mal-estar, e continuar tentando ser adolescente por mais alguns anos. Talvez pelo resto da vida.