No Dia Mundial de Luta contra a Aids, Gabriel Estrela, de 23 anos e portador do vírus HIV, conta abertamente sobre a descoberta do diagnóstico, há cinco anos, e sobre o motivo pelo qual resolveu falar do tema. Segundo ele, o uso dos antirretrovirais lhe permitem uma vida normal.

GLOBO: Como descobriu que tinha HIV?

GABRIEL ESTRELA: Peguei HIV porque fiz sexo sem camisinha. Não era comum, para mim, não usar preservativo mas aconteceu várias vezes. Descobri que tinha HIV porque fazia exames para o vírus HPV que apesar de estar associado sempre às meninas, também é comum nos meninos. Este dia, em que fui buscar os resultados, esperava numa sala do laboratório e ouvi a música “Boa Sorte”, da Vanessa da Mata e do Ben Harper, que dizia: “É só isso/Não tem mais jeito/Acabou, boa sorte”. Chorei muito. A primeira coisa que vem à cabeça é que acabou mesmo e que iria morrer.

E como foi contar para a família?

Contei logo em seguida. Lembro que meu pai disse que todos em casa também já haviam feito sexo sem camisinha e que não dava para me culpar pelo ocorrido. Porque a gente se culpa sozinho, claro. Eu tinha 18 anos. Em julho de 2015, resolvi escancarar. Porque toda vez que gostava de alguém, chegava a hora de contar sobre a minha sorologia e esperar a reação… Em julho fiz uma carta aberta e coloquei na internet. Joguei a bomba e fui viajar, tinha um compromisso profissional. Depois disso, montei o musical “Boa Sorte”, que parte da cena do laboratório.

Depois que o ator Charlie Sheen assumiu na TV que é portador do vírus HIV, em novembro agora, outras pessoas estão perdendo o medo também?

A gente fica se perguntando se o Charlie Sheen vai sofrer um golpe na carreira porque as pessoas acham que mostrar alguém vivendo com o HIV é fazer apologia do sexo não seguro. Mas, na verdade, mostrar uma pessoa vivendo com HIV é desconstruir o preconceito e isso precisa ser feito. Vejo uma onda positiva nesse sentido, mulheres assumindo que fizeram aborto, que sofreram violência. Mas, no caso do HIV, o problema vai além da convivência com o vírus. Envolve temas como homossexualidade e homofobia. Por isso, acredito que falar sobre o tema deve ser feito quando a pessoa se sentir segura, “no seu tempo”. Hoje há diversos ativistas jovens que lutam pela discriminação e sou otimista.

Como é viver com o HIV?

Nos filmes da década de 1980 e 1990, você vê pessoas com Aids passando mal, vomitando, com sangramento e eu ficava com medo que aquilo pudesse ser minha realidade. Mas hoje, com os tratamentos, a vida é outra. Com o diagnóstico feito cedo, a Aids não se concretiza. Eu uso camisinha, tomo meus remédios porque isso também é uma forma de prevenção. A gente sabe que a pessoa com vírus indetectável não transmite HIV. Hoje o HIV é um fato social na minha vida, não sexual. Claro que sempre lembro da minha sorologia porque tomo os remédios duas vezes ao dia e estou com o musical que conta a minha história. Mas o medo acabou.

Você tem patrocínio para o musical “Boa Sorte”?

Consegui viabilizar a peça com um financiamento coletivo no Kincarte. E foi por causa dessa campanha que surgiu o #eufalosobre. Porque queríamos presentear os doadores e criamos uma linha de produtos com a hastag. E o movimento cresceu. É preciso falar sobre a Aids, sobre sexo e perder o medo.

Fonte: O Globo.