Fonte: Ivan Martins

Almoçávamos, eu e um amigo recém-separado, e rolou uma conversa com as duas moças na mesa ao lado. Rapidamente se estabeleceu que uma delas era solteira e a outra casada. Quando eu sugeri, algum tempo depois, que a solteira trocasse telefones com meu amigo, que andava meio macambúzio, a amiga dela apoiou com entusiasmo: “Faz isso, ele parece legal. Eu sei, por experiência própria, que homens de segunda mão são ótimos. Meu marido está no segundo casamento”.

Antes de ouvir essa frase, eu nunca havia pensado em mim como uma espécie de carro usado – modelo básico, fabricação 1960, em bom estado de conservação, três donas –, mas a expressão e o entusiasmo da moça atraíram a minha atenção. Quer dizer que homens “testados” e “treinados”, como ela elaborou mais tarde, de forma meio jocosa, podem ser mais interessantes do que caras que nunca se casaram? Também isso nunca havia me passado pela cabeça.

 Vocês sabem que gente separada não se acha o máximo, não é? A sociedade nos contamina desde cedo com a aspiração do casamento perfeito e eterno e, depois, nos faz sentir péssimos quando a ilusão termina. Então, o homem separado – e a mulher separada – enfrenta, além do luto e da solidão que sucedem ao casamento, a sensação de fracasso, pessoal e social. A gente se sente gasto nesses momentos da vida, amarrotado, e o sentimento pode durar muito tempo. Anos mesmo.

O contrário dessa sensação de desânimo eu pude perceber na cara do meu amigo quando ele ouviu, de uma mulher atraente, que homens separados têm mais atrativos. Ajudou a autoestima dele.

Mas será que isso é verdade? Na condição de sujeito três vezes separado, eu deveria me abster de comentar, por falta de isenção. Não farei isso, porém. Primeiro, por achar que eu tenho coisas interessantes a dizer sobre o assunto. Segundo, por acreditar que formas moderadas de autopropaganda são legítimas.

Vamos lá, então.

Homens que já foram casados têm a vantagem óbvia de gostar de mulher. Parece bobagem, mas há muito homem hétero que não gosta. Quer dizer, o cara gosta de sexo, mas não do convívio com o feminino. Prefere ficar sozinho ou na companhia de outros homens. Se o sujeito já foi casado por alguns anos, significa que ele é capaz de dividir a vida com uma mulher. Se está atrás de outro relacionamento, é porque gostou da experiência. A chance de dar certo é maior.

Além de gostar de mulher, o cara que foi casado está acostumado a conviver com elas. De novo, pode parecer coisa sem importância, mas não é. As mulheres são diferentes dos homens. Elas têm outros hábitos, outras necessidades, uma maneira diferente de lidar com as coisas grandes e pequenas da vida. A cultura delas é outra, e isso se reflete na forma de pensar e agir. Um homem que está habituado a essa diferença – e gosta dela – é meio caminho andado.

O cara que foi casado, e aprendeu algo com a experiência, tornou-se mais adulto. Ele sabe que a vida a dois não é como na casa da mãe dele. Ele cuida para ser cuidado. Ele ouve para ser ouvido. Ele divide decisões, tarefas e chatices. Ele se responsabiliza pela relação. Um cara que nunca foi casado talvez ache que depois de uma briga ele pode ligar o videogame e ignorar a mulher, feito um adolescente emburrado. Quem tem experiência de convívio sabe que não é assim que se faz.

Talvez a coisa mais importante, e a última que eu tenho a dizer, é que os homens casados aprenderam a prestar atenção nas mulheres. Pelo menos em alguma medida eles tiveram de sair do poço de Narciso e se debruçar sobre as necessidades do outro, inclusive subjetivas. Essa é a parte mais difícil de qualquer relação. Tem gente com uma vocação natural a olhar e compreender o outro. A maioria de nós aprende isso a duras penas, errando e perdendo as pessoas que ama. Encontrar alguém que já avançou nesse caminho é melhor do que começar do zero, com quem ainda não sabe nada.

Me ocorre agora, relendo o que escrevi, que esses elogios aos homens separados poderiam servir, ainda melhor, às mulheres que passaram pelo casamento. Na minha limitada experiência, mulheres de segunda mão também são ótimas. Mais tranquilas, mais tolerantes, mais amorosas. Assim como os homens, elas descobriram que os afetos e as relações não são necessariamente para sempre, e por isso são ao mesmo tempo mais leves e mais atentas no trato com o presente. É como se soubessem que é importante viver o amor agora, com intensidade e dedicação, porque amanhã a gente não faz ideia do que vai acontecer – na vida de casados e de solteiros.