Fonte: Ruth Manus, colunista do Estadão

Nada mais corriqueiro do que ouvir brasileiros queixando-se do quão diferentes são as coisas no Brasil e na Europa ou nos Estados Unidos.  Dizendo que o transporte público é melhor, que as cidades são mais limpas, que há mais segurança e todo aquele papo que já estamos cansados de ouvir. É verdade, precisamos evoluir em muita coisa, não há dúvidas.

Mas, curiosamente, existe uma coisa específica que eu acho que deveria nos constranger muito no Brasil. A questão da faixa de pedestres. Nós, na imensa maioria das vezes, simplesmente não paramos o carro para que os pedestres atravessem. É realmente complicado porque, quando o assunto é este, não podemos culpar os políticos, a falta de dinheiro, nem a polícia militar. A culpa é só nossa.

O artigo 70 do Código de Trânsito Brasileiro afirma que “os pedestres que estiverem atravessando a via sobre as faixas delimitadas para esse fim terão prioridade de passagem, exceto nos locais com sinalização semafórica  (farolzinho verde/vermelho pro pedestre)”. É simples, né?

Quando vim estudar em Portugal percebi que era um tanto quanto estranho o meu hábito de agradecer os motoristas que paravam para que eu atravessasse a rua na faixa (“passadeira”, aqui), pelo simples fato de que eles não imaginam agir de outra forma. Aqui ninguém precisa pensar “olha que motorista simpático, ele deixou que eu exercesse meu direito de atravessar a rua sem morrer atropelada, puta cara legal, valeu mesmo”. Aqui os motoristas param porque sabem que têm a obrigação de parar. E porque têm consciência de que todos os motoristas, em algum momento também são pedestres.

Já nós… Veja bem, sabe como é, né? Não parei porque estou com muita pressa. Atrasadão. E eu não sei se ele queria mesmo atravessar. O pedestre estava mexendo no celular. Eu estava fazendo a curva e não vi que tinha pedestre. Eu estava no cruzamento, iam me xingar. Sempre há uma desculpa.

E eu não vivo na Noruega. É Portugal, sangue latino, baguncinha e tal, mas a regra é clara: o pedestre é o dono da faixa e é o carro quem toma cuidado para passar. A gente resolveu, não sei baseado em que, que o pedestre é quem toma muito cuidado e o carro não toma praticamente nenhum. Isso é tão constrangedor. Isso sim é super “terceiro mundo”.

É claro que nós, enquanto pedestres, não devemos atravessar sem olhar, saltitantes e inconsequentes. Também é preciso ter disciplina, respeitar o farol e tal. Mas que fique claro: a responsabilidade maior é de quem dirige. Enquanto o farol estiver aberto e não houver faixa de pedestres, vai que é tua motorista. Mas quando a faixa aparecer, você diminui, olha, fica atento e, se houver alguém… vo-cê pá-ra.

Ah, mas o motorista de trás vai buzinar. Deixe que buzine, o ignorante. Um dia ele vai entender, mas é preciso criar o hábito. Sério gente, estamos em 2016, não podemos nos comportar assim, é muito feio. Feio, ilegal, perigoso e negligente. É preciso, sem dúvidas, melhorar a educação de trânsito. Mas tem coisas que a gente já sabe… Farol vermelho é para parar. Faixa de pedestre também. A gente não melhora um país só com escolhas sensatas nas urnas, mas com crítica e revisão dos nossos próprios pequenos grandes comportamentos. Tá ná hora, né?