Fonte: Ruth Manus, colunista do Estadão

Nesse fim de semana perdi um amigo de faculdade. Rolou todo aquele processo: desacreditei, pedi para 5 pessoas diferentes confirmarem a notícia, chorei, fiquei transtornada, olhei as últimas mensagens que trocamos, sonhei que tinha sido só um pesadelo. Mas não, foi isso mesmo, nesse estranho ciclo da vida.

 

Na semana anterior, estava falando com as amigas mais próximas da faculdade para marcarmos um encontro do pessoal todo. Queríamos fazer isso por saudades de alguns, mas, sejamos sinceros, também para analisar muitos outros. Eu já sabia como seria esse encontro. Meia dúzia de sorrisos para cada duas dúzias de cochichos. Comentaríamos quem engordou, quem está ficando careca, quem está ganhando muito, quem se perdeu na carreira. Abraçaríamos alguns, criticaríamos tantos outros (sobretudo aqueles de quem guardamos pequenas mágoas ou outras merdinhas).

 

Até que esse amigo morreu, e eu percebi o quão ridículo era este espírito de reencontro. Será mesmo que nós somos tão pequenos? Que não somos capazes de nos encontrar de peito aberto, com um pouco mais de transparência? Que não somos capazes de desejar verdadeiramente que todos estejam bem e felizes? Que não somos capazes de abandonar ressentimentos tão insignificantes?

 

Na noite em que soube da perda desse amigo coloquei tudo em questão. Agi diferente. Olhei com mais cuidado para os lados antes de atravessar a rua. Não quis beber álcool no jantar. Mandei uma mensagem pacífica ao meu ex, que também era amigo dele. Liguei para a minha mãe. Olhei para o meu namorado dormindo e agradeci. Fiquei com os olhos abertos, estatelados em direção ao teto a madrugada toda, repensando coisas, revendo cenas e pensando, angustiada, no quão efêmera é essa vida na qual você curte a foto de um amigo instagram de manhã e à noite descobre que ele está morto.

 

Acordei, tomei meu remédio da tireoide e respeitei os 30 minutos de jejum, que costumo fingir que só precisam ser uns 10. Mandei uma mensagem no grupo dos meus amigos de infância, dizendo o quanto os amo e o quanto a distância me incomoda. Uma de nós morreu aos 19 anos e parece que, quase 10 anos depois, nós esquecemos parte da união e da incondicionalidade que isso nos proporcionou. Demos espaço às merdinhas. Mas naquela manhã eu sabia perfeitamente que merdinhas eram só merdinhas.

 

Marquei exame de sangue e dentista. Decidi pedir aos meus irmãos que não deixem minhas sobrinhas serem filhas únicas. Comprei frutas orgânicas. Pendurei os quadros novos e coloquei outras fotos nos porta-retratos. Joguei fora umas coisas meio velhas que estavam na despensa. Cortei folhas amareladas das plantas da varanda. Respondi mensagens pendentes. Pedi desculpas.

 

Marcamos o encontro do pessoal da faculdade em homenagem a ele. Acho que vamos todos sem máscaras.

 

Sigo sem entender bem o sentido destas perdas. Sigo um pouco confusa com estas estranhas decisões do destino. Sigo um pouco desnorteada. Parece que a única coisa que entendo, por enquanto, é que a gente não deveria precisar perder alguém querido para voltar a tentar ser o melhor que a gente pode.